
Kuragehime tem sua origem em um mangá josei de autoria de Akiko Higashimura e recebeu uma adaptação para anime em 2010 pelo estúdio Brain’s Base (Durarara!!, Baccano), sendo transmitido no aclamado bloco NoitaminA. A obra contém um total de 11 episódios.

A história é centrada no Amamizukan, um grande alojamento em que vivem seis mulheres, todas otakus, e onde não é permitida a entrada de homens. Dessas seis, temos a protagonista, Kurashita Tsukimi, que é otaku de águas vivas. Ela é bastante anti-social, tendo muito medo de qualquer pessoa muito bonita ou de arrumar um emprego fixo. As outras moradoras do Amamizukan também têm os mesmos problemas, elas são NEETs (termo usado para designar quem não trabalha, não estuda e nem está em treinamento) e referem-se a si mesmas como AMARS (virgens, freiras, santas).
A história começa a engrenar quando Tsukimi se encontra com Kuranosuke, uma pessoa muito linda e fashion, tudo o que ela mais teme. Salvando-a de uma situação complicada, ela acaba se tornando amiga da pessoa estilosa e a leva para o Amamizukan. A linda pessoa acaba passando a noite no quarto da Tsukimi, mas no outro dia, ao vê-la sem roupa, Tsukimi descobre que na verdade ela é… um homem.

Daí Em diante, revela-se que Kuranosuke é filho de um famoso político e, apesar de gostar de se vestir de mulher, é hetero e só faz isso por diversão e por não querer participar da carreira política por achar tudo muito chato. Inicia-se também um conflito, pois alguns empresários querem tomar a área em que o Amamizukan está, transformando-a em uma área mais cosmopolita e construindo um hotel de luxo no local da irmandade. Esse é um problema pois as garotas não têm onde morar, afinal a renda delas é baixíssima e não possuem emprego. Porém, a trama não se resume só a esses pontos, desenvolvendo diversos aspectos e mostrando bem cada personagem.
Esse é um ponto alto da série: personagens. Apesar de pouco tempo para desenvolvê-los, 11 episódios é o tempo suficiente para se apaixonar ou odiar cada um deles, entendendo (ou não) seus motivos. Tsukimi é a protagonista, moradora do Amamizukan, otaku de águas vivas; perdeu sua mãe quando pequena e por isso vive dialogando com ela, é anti-social assim como as outras garotas da irmandade e tem um talento ímpar para fazer ilustrações. Ela acaba criando um laço de amizade com uma pessoa totalmente fora de seu universo, Kuranosuke. É um rapaz rico, filho de um famoso político, que tem como principal hobby se vestir de mulher. É um homem bastante empolgado e comunicativo, que acaba se interessando pelas personalidades excêntricas da irmandade e resolve ajudá-las para que o lugar não seja vendido e transformado em um hotel. Isso tudo, claro, sem elas saberem que ele é de fato um homem.

As outras moradoras do Amamizukan acrescentam bastante à série e rendem muitos momentos interessantes de comédia. Chieko é filha da dona do Amamizukan, mas acaba tomando conta do lugar por sua mãe nunca estar presente; sempre usa roupas tradicionais japonesas, além de ser obcecada por bonecas tradicionais japonesas, ao ponto de considerá-las parte de sua família. Bamba é uma garota que nunca mostra seus olhos, que estão sempre tapados por seu afro; é viciada em todos os tipos de trens. Mayaya é otaku do período dos Três Reinos da China, tudo o que ela fala está relacionado a esse período, como se ela ainda vivesse nele; tem a mania de fazer poses estranhíssimas e sempre falar gritando. Jiji é otaku de homens de meia idade e é bastante silenciosa. Além delas, há ainda Meijro, uma escritora de mangás yaoi que vive trancada no seu quarto por ter fobia social; ela se comunica com as outras apenas através de mensagens escritas que são enviadas por baixo da porta.
Além da irmandade, o quadro das personagens se completa com Shu, irmão de Kuranosuke, que segue os passos do pai e ingressa na carreira política; e Inari, uma empresária bastante sedutora que luta para a transformação do Amamizukan em hotel.

Um dos pontos mais interessantes do anime é ver o encontro entre universos tão diferentes por meio das personagens. O encontro de Tsukimi com Kuranosuke pela primeira vez foi feito de maneira belíssima, mostrando o dúbio sentimento de Tsukimi ao se encontrar com uma pessoa muito bonita, afinal ela sente medo delas, mas ao mesmo tempo a admira. Ao salvar uma água viva de uma loja de animais, Kuranosuke acaba ganhando a confiança da garota e é desse ponto que todas as situações vão se desenvolvendo.
Apesar de curto, o anime consegue criar uma história convincente para Tsukimi: ela se inicia apenas como uma garota desempregada com um belo talento para desenhar, mas ao fim consegue colocar seu talento para criar algo produtivo. Esse caminho é construído aos poucos, sendo que para isso são necessárias as lembranças de sua mãe, a empolgação de Kuranosuke e a necessidade de conseguir dinheiro para impedir a venda do Amamizukan.

Outro ponto interessante é ver a evolução das outras integrantes da irmandade, mesmo que seja pequeno. Eu, particularmente, adoraria ver mais momentos da Chieko, que é minha favorita da série, mas já foi bastante satisfatório vê-la ajudando Tsukimi em sua evolução, principalmente nas cenas em que ela usa suas habilidades para costurar. Simplesmente hilária! As outras integrantes também protagonizam momentos muito engraçados. Aliás, a série é cheia de situações inusitadas e muito engraçadas.

A comédia é um fator sempre presente na série, afinal juntar cinco otakus com uma pessoa totalmente fora de seu universo e que na verdade faz constantes comentários que acabam irritando-as, afinal ele não entende o estilo de vida que elas levam; é isso que acaba sendo o motivo maior pelo qual ele se interessa por elas. Um recurso bastante utilizado no ponto cômico é a intervenção de Clara, a água viva de Tsukimi, obviamente de forma cartoonizada, para apresentar alguns pontos importantes em algumas cenas; ela também aparece para mostrar um quadro que mostra a pergunta que nunca deve ser feita para a irmandade naquela semana (e que, obviamente, foi feita).
A trilha sonora traz músicas que se encaixam bem em todos os momentos: relaxantes, agitadas e emocionantes. A abertura é feita pela banda Chatmonchy e o encerramento pela Sambomaster, que por sinal são excelentes, cobrindo bem o lado sentimental da série. Os dubladores fazem um excelente trabalho, principalmente a Okamura Akemi, dubladora da Mayaya, que consegue fazer os escândalos dela de maneira perfeita.
O romance está presente de forma bastante sutil, raramente tomando o foco principal. Tsukimi, que começa a série fazendo parte da Amars, acaba conhecendo um pouco melhor esse sentimento ao conhecer Shu, o irmão de Kuranosuke. O desenvolvimento dos sentimentos dela é feito de maneira majestosa, relatando bem a transição de uma garota que se defendia desse tipo de envolvimento para uma que de fato começa a notar que pode sim se abrir para sentir algo por alguém. O fato dela sempre dialogar com sua mãe é um recurso bastante emotivo, e a necessidade de relacionar tudo a águas vivas, até nesses casos, é uma caracterização que deixa a personagem ainda mais original. Os sentimentos de Kuranosuke também são bem colocados e explicitados. Vale ressaltar que não há uma solução para esses casos no anime, provavelmente sendo continuados no mangá.

O traço é lindo, conseguindo ressaltar ainda mais as personalidades bizarras das integrantes da irmandade, a beleza de Kuranosuke, o estilo “bitch” de Inari, enfim, consegue potencializar bem as características. As roupas também recebem uma atenção especial, todas são muito bem desenhadas, desde as roupas mais simples até as mais elaboradas. Enfim, o visual todo do anime é bastante empolgante e abrilhanta ainda mais a série. É legal perceber também que as personagens femininas, na maioria dos animes que retratam o universo dos otakus, são sempre bem vestidas, arrumadas e bonitas; já aqui, há um retrato mais real delas, mostrando-as bastante desleixadas. Apesar de passarem por uma transformação visual em alguns momentos da série, nenhuma delas muda sua personalidade ou gostos; elas sabem que são estranhas e que não fazem parte da sociedade “normal”, mas não há vergonha nenhuma em ser e admitir o que são.

Kuragehime é sem dúvidas uma grande adição ao mundo dos animes, e é interessante ver como a narrativa não perde o ritmo em momento algum da série. É uma ótima pedida para quem gosta de personagens carismáticos, comédia e uma boa dose de cultura japonesa. Kuragehime vale cada segundo do tempo gasto para assisti-lo. Nota 10.